É por vários motivos que faço questão de vos manifestar o prazer que sinto em inaugurar este simpósio.

A oportunidade de estar entre vós é, sem dúvida, uma das principais razões que motivam esta satisfação. Conheceis, com efeito, o lugar de eleição que atribuímos, a minha esposa e eu próprio, às nossas amizades e às nossas relações com a Universidade de Potchefstroom. Em seguida, a possibilidade que me dais de me exprimir sobre o objeto de uma investigação que ocupou quase toda a minha existência é outra, não negligenciável. Por fim, o facto de me convidardes a considerar como um desafio a obra que se realiza constitui um dos meios mais seguros de me incitar a participar neste encontro.

Sem dúvida, o Professor Van Jaarsveld já conhecia a minha resposta quando me propôs o título desta intervenção, sabendo o quanto me agrada aceitar e sustentar o desafio. É verdade que, por minha própria iniciativa, não me teria concedido o direito de me envolver numa tal abordagem, nem que fosse porque não me parecia evidente pensar que a minha atividade pudesse ter sido sentida como um verdadeiro desafio.

Foi, portanto, um esclarecimento de consciência inteiramente novo para mim que este pedido suscitou, e os efeitos que devia provocar foram suficientemente poderosos para me levar a precisar o meu pensamento, com vista a situar, por um lado, o conjunto dos meus trabalhos em relação à psicologia.

A considerá-los, por outro lado, na sua dimensão pedagógica e, enfim, a determinar o seu estatuto perante a esfera médica. Foi-me assim dada a oportunidade de avaliar, em certa medida, o contributo que estas investigações tinham podido trazer a diferentes domínios do conhecimento.

É evidente que sou simultaneamente o mais bem designado para enunciar e enumerar as diferentes potencialidades da Audiopsicofonologia, ciência que me foi dado elaborar de raiz; mas, sem dúvida, sou também o mais mal colocado para julgar a obra realizada, estando eu próprio demasiado implicado. Todavia, com a ajuda da idade e com o avanço diário numa melhor compreensão dos mecanismos que regem o psiquismo, sustentando sem cessar os resultados obtidos, parece-me agora possível analisar objetivamente o conjunto dos trabalhos realizados. Sem dúvida que, nesta ocasião, cada dia que passa me revela o privilégio que tenho de envelhecer. O meio mais seguro de atingir a idade madura não reside na alegria que nos é oferecida de avançar com plenitude no caminho traçado e dentro dos limites do tempo que nos é concedido viver? É então que o conhecimento nos é distribuído acerca de todas as coisas, com uma generosidade tanto mais ampla quanto mais disponíveis e capazes tivermos sido de receber para tudo dar.

A qualidade do desafio reside tanto no facto de introduzir um impacto novo, inesperado, insólito, que perturba ou pelo menos modifica a ordem estabelecida, como na necessidade de sustentar o esforço durante um longo período no decurso do qual as evidências se instalam. É efetivamente necessário que este impacto primeiro, verdadeiro impulso, seja sem cessar vivificado por novas propostas de investigação que devem elas próprias ser permanentemente reanimadas. É a lei. Toda a propagação que pretende prosseguir exige que o esforço inicial seja sustentado sem descontinuidade. Cada um sabe, com efeito, que o problema de um impulso é resistir aos efeitos de amortecimento. Ele deve propagar-se no tempo e no espaço sem perda de energia. Sabe-se também — e o caso foi-nos dado constatar por várias vezes — que todo o desvio acarreta efeitos secundários que provocam rapidamente resistências devidas à ação dos sistemas aberrantes assim construídos. Acrescentemos que estes acabam, na maioria das vezes, por se anular graças aos efeitos de interferências que acarreta a entrada em funcionamento destes mecanismos anormais.

Tem-se frequentemente tendência para atribuir ao desafio a etiqueta de combate. É verdade que a imagem não é demasiado forte, pois trata-se, de facto, de uma luta permanente travada contra os preconceitos dos homens e porque se trata também de uma incessante revisão dos conhecimentos do momento, para que, no fim do percurso, se possa, à força de intuições e de observações, atingir o próprio lugar onde tudo é verdade através da evidência. Mas nada é tão delicado como enunciar uma evidência, pois ela escapa às hipóteses e, por esse facto, evita todas as teorias. Ela impõe-se por si mesma, sem que qualquer axioma possa macular a sua realidade.

Bem vistas as coisas, é verdade que a Audiopsicofonologia é essencial e unicamente um desafio. De qualquer lado que se examine, ela aparece como tal. E basta penetrar no seu universo para disso ficar persuadido.

Ela constitui uma apologia da escuta, da escuta induzida pela linguagem. A escuta elabora-se, com efeito, de maneira concomitante e, se há linguagem ao nível mais elevado em que a situamos, há forçosamente a sua resposta: a escuta. Pois de nada serviria ao Logos tomar a sua forma verbalizada se não pudesse assegurar-se de ser apreendido, até ser encarnado através da escuta.

Só o teólogo se sentirá à vontade perante uma tal formulação, ele cujo conhecimento é constantemente sustentado pelo leit-motiv que põe em paralelo a escuta e a palavra. Em contrapartida, concebo perfeitamente que o facto de pretender que a linguagem — considerada na sua forma mais elaborada, isto é, ao nível de um verdadeiro diálogo, seja o indutor da escuta e, por isso mesmo, do ouvido, com tudo o que ele representa no plano da organização cortical, constitui um desafio às conceções embriogenéticas. Estas últimas falam de fato de induções, mas procuram-nas nos elementos que mobilizam as atividades cerebrais e que desencadeiam reações de proximidade em proximidade. Tudo se passa, neste caso, como se se focalizassem em certos lugares potencialidades eletivas capazes de desempenhar o papel de «organizadores». Mas o cientista repugna dar o salto que arrisca conduzi-lo até ao «indutor maior», origem de toda a indução. A sua racionalidade paralisa-o e obriga-o a avançar às cegas, passo a passo, enquanto perde a sua visão de longe à medida que o horizonte se afasta.

É ainda um desafio pretender que a escuta conduz o ouvido a tornar-se o que ele é. E, no entanto, uma análise ao longo do tempo, quer se trate do percurso filogenético quer do processo ontogenético, revela-nos que o ouvido se organiza para aceder a esta excecional função que parece própria do homem e que, de facto, lhe é atribuída para que o Logos se exprima. Mas tal abordagem exige que se encare a reconsideração da fisiologia do ouvido e que se aceite ir assim contra as conceções habituais. O ouvido humano funciona, com efeito, exatamente ao contrário do que dele se pensa atualmente. O órgão auditivo instala-se pelo seu vestíbulo e sob a influência da cóclea que o conduz a isso, para que o cérebro possa apreender qualquer fenómeno sonoro. Uma tal performance requer não só uma atitude postural bem definida, mas implica também que o ser humano se ponha à escuta, com todo o ouvido aberto, isto é, com todo o ouvido interno pronto a entrar numa obediência total perante esta função essencial, convidando os seus anexos médios e externos a conformar-se a esta dimensão.

Por outras palavras, escutar é um ato de elevada natureza que decorre da função mais elevada do cérebro, chamada a integrar o que o Logos lhe revela. Isto exige que uma adaptação segunda se organize a fim de permitir ao ouvido adquirir esta aptidão particular. Daí em diante, tornando-se um órgão essencialmente captor, no sentido ativo do termo, ele enriquece-se de toda a informação ao mesmo tempo que beneficia das miríades de estimulações que esta atitude postural lhe permite recolher.

É assim que ele recolhe não só os estímulos sonoros aos quais se associam as sequências significativas que sabe descodificar, mas também as estimulações que o conjunto vestibular do labirinto coordena. Graças às respostas articulo-musculares e ósseas que este sabe reunir, instala-se assim todo um jogo da estática postural antigravítica e da dinâmica cinética dos movimentos.

Se é verdade que esta nova conceção, que faz da escuta a função maior do ouvido, acende e atiça o interesse do psicólogo, não é menos verdade que ela encontra muito frequentemente uma oposição marcante por parte de certas especialidades, tais como a audiologia e a otorrinolaringologia. Confinadas há várias décadas em dados teóricos que as conduzem a impasses, estas especialidades permanecem, paradoxalmente, surdas à nossa abordagem. Lançada por falsas pistas desde Helmholtz até Von Bekesy, a fisiologia auditiva, embora se enriqueça a cada dia de numerosos conhecimentos parcelares do maior interesse, continua, com efeito, a colocar problemas sem solução.

Ora, a teoria que propomos acerca do funcionamento do ouvido inverte a polaridade destas conceções ao atribuir à condução óssea o primado que ela merece. Ela explica assim os resultados das explorações atualmente realizadas neste domínio. Melhor ainda, justifica-os ao revelar o seu pertencimento a uma mesma unidade funcional.

É também um desafio pretender, perante médicos, que o aparelho auditivo se comporta realmente como uma central dinamogénica. Mas não será um desafio unicamente porque ainda não pensaram nisso? Os zoólogos, pelo contrário, conhecem há muito este efeito energetizante do ouvido e sabem perfeitamente que esta função é um fator primordial. O desafio reside, de facto, na necessidade de derrubar as barreiras que separam duas especialidades, tão próximas, porém, uma da outra no plano do conhecimento fisiológico.

É também um desafio, um desafio à linguística, pretender que a linguagem, encarada na sua função mais elevada, aquela que denominámos a «função da linguagem», se encontra a ser o indutor principal. Não tem, com efeito, o linguista uma estranha propensão para introduzir a relação inversa? Para ele, a linguagem é o fruto do meio sociocultural. É verdade que o homem é chamado a nomear as coisas e os seres, como estipula com tanta verdade e poesia o Génesis. Mas a função da fala que lhe permite responder a este convite não é senão a resposta analógica da função da linguagem, ela própria induzida por uma intencionalidade que ultrapassa todo o entendimento. Esta superação não suprime de modo algum o valor da resposta fenomenológica e não pode senão inundar-nos de deslumbramento.

Examinada a tal nível, a linguística adquire um aspeto totalmente diferente, e a linguagem perde a sua dimensão de instrumento para não ser mais do que uma secreção exsudada por um corpo que se torna, a partir de então, o instrumento mais ou menos afinado da função da linguagem.

É também um desafio pretender que o ouvido é um captor de comunicação que não só integra o dizer do outro — o que é facilmente concebível — mas ainda controla o próprio discurso do locutor graças à elaboração de uma alça áudio-vocal que faz do ouvido — e, no caso mais favorável, do ouvido direito — o regulador de uma linguagem fluidamente expressa, facilmente controlada em todos os seus parâmetros.

O desafio prossegue quando se afirma que, por este jogo de diferenciação relativo à utilização preferencial de um ouvido sobre o outro, se organiza uma estrutura dinâmica inter-hemisférica. Perturbando assim os conceitos de lateralidade até então tão mal compreendidos e tão falsamente elaborados, a nossa proposta introduz uma montagem que revela os mecanismos dos dois hemicérebros. Um, o hemisfério esquerdo, vai assegurar as funções sensório-motoras, enquanto o outro, o direito, se atribuirá o controlo da boa execução desses mecanismos. Assim, o diálogo inter-hemisférico adquire um significado totalmente diferente desde que se atribuam aos hemisférios cerebrais atividades concomitantes e, sobretudo, complementares. Instala-se uma dupla polaridade que permite centralizar, nos casos de um elevado grau de organização, a totalidade da atividade sensitiva, sensorial e motora de todo o corpo no cérebro esquerdo, e focalizar no cérebro direito o controlo executivo da totalidade desses atos.

Como se vê, os conceitos geralmente sustentados sobre a lateralidade encontram-se assim largamente modificados, tomando a linguagem precedência sobre todas as outras atividades que, embora apresentando um grande interesse, são relativamente menores em relação a esta função essencial. Na nossa ótica, o corpo adquire uma posição tridimensional perante a função da fala. Um eixo representa a verticalidade, essa postura tão indispensável à elaboração do ato verbalizado. Um segundo eixo garante a dimensão esquerda-direita e permite medir se a alça áudio-vocal é dominante de um ou de outro lado deste eixo. Desta regulação dependerá a obtenção do que denominámos a voz direita ou a voz esquerda. Por fim, um terceiro eixo traz a dimensão póstero-anterior. A utilização do corpo encarada essencialmente em função destes três eixos revela a maneira como a linguagem flui e permite detetar as resistências que se manifestam por má posição ou má coordenação.

No cume desta hierarquização dinâmica que é a lateralidade, podemos então dizer que o ser humano atinge um verdadeiro estado de fusão ao qual se poderia atribuir o nome de ambidestria, para indicar que ele se torna hábil (destro) dos dois lados, contrariamente ao estado de ambiesquerdismo, que indica que o sujeito é inábil dos dois lados.

A partir destes diferentes dados, pudemos sustentar, a título de novo desafio, que o ouvido — bem entendido sob a alçada da função da linguagem à qual está definitivamente sujeito — estava neurologicamente na origem da emergência do sistema nervoso. No termo das investigações que empreendemos neste domínio há mais de trinta anos, pudemos pôr em evidência a existência de três integradores: o integrador vestibular ou somático, o integrador visual ou espacial e o integrador coclear ou linguístico (ver documento anexo). Estas três grandes redes neuronais, que são simultaneamente sensitivo-sensoriais e motoras, são postas à disposição da função da linguagem que vai exprimir-se, em toda a dinâmica gestual e da fala, sob o impulso dos feixes piramidais, verdadeiros transmissores do ato voluntário.

Estes diferentes desafios lançados à audiologia, à fisiologia, à neurologia, à linguística levaram-nos a desembocar muito naturalmente naquilo a que se convencionou chamar a psicologia, disciplina em que, parecia-nos, a escuta e a linguagem ocupavam um lugar de eleição. O combate travado nem por isso foi mais fácil. As tendências psicanalíticas acomodavam-se mal aos contributos técnicos e eletrónicos que constituíam os meios de educação da escuta e da linguagem. Por outro lado, a escola behaviorista rejeitava de imediato a realidade simbólica que se perfilava a todos os níveis através das ressonâncias afetivas familiares. Quanto à psicolinguística, mantinha-se obstinadamente hostil às novas conceções que faziam da função da linguagem o indutor essencial do humano no homem.

No entanto, com a obstinação que nos caracteriza, abordámos pouco a pouco a esfera psicológica introduzindo os dados que a experimentação e a clínica nos permitiam recolher no que respeita ao papel essencial que o ouvido é chamado a desempenhar no plano da comunicação do ser com o seu meio. Esta comunicação, fui levado rapidamente a situá-la in utero, ao nível da relação primeira, da relação do feto com a sua mãe. Afirmando então que a génese da escuta se instituía no decurso da vida fetal, lançava um novo desafio, o maior, sem dúvida, que me foi dado levantar, o mais fascinante também pelos prolongamentos que detinha no plano moral, no plano da ética humana.

É desde o estado embrionário que a vida se manifesta na sua função da linguagem, pois, certamente já se terá compreendido, este modo de expressão é o da própria vida, induzindo pela sua presença o ser que a encarna com força e vigor. O embrião é um ser por inteiro, ligado à escuta desde a primeira faísca de vida. Admite-se hoje considerar que o feto ouve desde o quarto mês e meio da vida intrauterina, mas apraz-me afirmar que a função de escuta induzida pela função da linguagem se institui bem antes desse momento. Ela está já determinada, ou mesmo predeterminada. Uma tal asserção leva-nos a sustentar que há, em todo o ato que atenta contra a vida, uma eutanásia, quer seja pré-embrionária, embrionária ou fetal.

Esta introdução na vida do feto no seio do regaço materno iria, por outro lado, arrastar-me para novas audácias, para uma nova galera, diria. A simbólica mãe-pai tornava-se cada vez mais evidente e, enquanto o corpo afirmava a sua implantação carnal materna, a imagem paterna adquiria um significado outro ao identificar-se, pela semântica, à semente primeira que participa, desde o início, na faísca de vida.

Nesta perspetiva audaciosa, confesso-o, o ouvido direito adquiria um sentido muito particular, fazendo as vezes de captor da fala e ligando assim a si a simbólica paterna como vetor em direção ao universo social, enquanto a mãe se atribuía a simbólica da esquerda, do passado, da voz (e não da linguagem). As minhas diversas experiências clínicas neste universo não tardariam a fazer da mãe o símbolo do soma, da estática, do não-avanço e até da fuga, ao passo que o pai permanecia o símbolo do futuro, da dinâmica de vida.

À escuta do Logos, à escuta do outro e de si, o ouvido estará à escuta do corpo. Um último voo neste romance de aventuras permitir-nos-á encarar as somatizações ao nível de um não-diálogo entre o ser que reside em cada indivíduo e o seu corpo investido da sua personalidade. Aí encontraremos talvez as origens das doenças e receberemos uma nova luz sobre a patologia.

O corpo, com efeito, desempenha, a todos os momentos e a todos os níveis, um papel de compensação perante os desvios psicológicos. Esta válvula evita uma introdução no mundo psiquiátrico. Mais vale pagar com o corpo do que com a alma.

Esta abordagem nova é, incontestavelmente, um desafio à medicina habitual e um convite a modificar as estruturas existentes a fim de que a doença e o sofrimento adquiram um significado totalmente diferente daquele que geralmente lhes é atribuído. Devemos, com efeito, mudar a nossa atitude para compreender o sentido do sofrimento mais do que as razões da sua existência, para aprofundar as suas causas e extrair um ensinamento relativo a uma linguagem até então não decifrada: a da doença.

Nesta ótica, toda a doença de órgão aparecerá como a absorção pelo corpo de uma neurose, enquanto as degenerescências malignas traduzirão fixações de psicoses.

Evocamos aqui casos extremos para impressionar mais a atenção, mas podemos também arrumar entre todos estes distúrbios psicossomáticos as otites, as anginas, as vertigens do tipo Ménière, as surdezes psicológicas e, enfim, as epilepsias, verdadeiros auto-electrochoques que o sujeito se administra para pôr termo a uma dor demasiado intensa provocada por uma profunda angústia.

Por fim, citemos as alergias que traduzem, em linguagem somática, o dizer do corpo, não pelo sofrimento mas por uma ressonância demasiado grande que torna aguda a comunicação, numa dinâmica relacional mal vivida, de facto demasiado sentida, tais como a asma, o eczema, etc.

Agora, é bom que nos detenhamos aqui para que, enfim, após esta sucessão de desafios que fazem parte, deveis ter-vos apercebido disso, de um mesmo domínio, eu possa significar-vos o que representa para mim a Audiopsicofonologia.

O que é, então, a Audiopsicofonologia?

Como se sabe, o termo «audiopsicofonologia» é um neologismo. Foi construído por fragmentos e por etapas. Com efeito, o cirurgião otologista que eu era tornava-se, com o tempo, audiologista de investigação. Depois, enquanto era levado a preocupar-me com vozes profissionais — os cantores em particular — o termo «fono» surgiu e estruturou-se sob a forma de «fonologia» quando estendi o campo de investigação à própria linguagem. Assim, a audiofonologia ganhou corpo e iniciou o seu voo.

No entanto, enquanto o meu bisturi cirúrgico se embotava e a medicina me revelava a sua incompreensão perante o próprio sentido da doença, fui levado a conduzir o organicista que eu era para uma dimensão até então desconhecida para mim, aquela que se preocupa com a alma. Abordei-a sem condicionamento universitário. Confrontei-me com a sua presença imanente e com a sua inapreensível materialidade. Descobria-a por toda a parte, em cada personagem, em todo o indivíduo, vibrante e ressoante com mais ou menos força.

Uma observação objetiva, se assim posso dizer, dos estados de alma ofereceu-me assim, tanto mais rapidamente, o seu rico leque, quanto a sua intervenção se tornava evidente, simultaneamente na audição, que devia transmutar-se em escuta, e na linguagem, que desvendava as suas dimensões reais. Estas iriam rapidamente manifestar-se traduzindo os acentos profundos do ser, e não exprimindo os entrelaçamentos verbalizados de um discurso decalcado e imposto pelas pressões socioculturais pelas quais cada indivíduo aprende a moldar a sua máscara.

Foi assim que julguei bom e necessário substituir o hífen gráfico que unia os dois termos «áudio» e «fonologia» pela realidade substancial que podia representar o acréscimo de «psique». Daí em diante, a Audiopsicofonologia ganhava forma, à maneira de uma nebulosa que se densifica progressivamente antes de se tornar uma verdadeira entidade. Um estado de sobrefusão operou-se em mim próprio de forma progressiva e acarretou, a certo momento, um processo de cristalização que me permitiu detetar as imbricações desta abordagem a diferentes níveis e em múltiplos domínios.

Pode-se, claro, perguntar se a Audiopsicofonologia é uma ciência ou se desemboca numa filosofia. Se é uma ciência, deverá honrar-se de pertencer ao domínio da física pela sua abordagem dos fenómenos acústicos? Ou permanecerá essencialmente solidária da fisiologia pela perceção auditiva e pelas consequências neurológicas que daí decorrem? Pode-se também perguntar se ela não se orienta, com toda a justiça, para a linguística, jogando nos seus diversos registos com os diferentes elementos do discurso, desde a análise da qualidade da voz até às ressonâncias semiológicas.

De facto, ela é mais do que tudo isso. Ela visa restabelecer as normas de uma arte de viver. É nisso que se inscreve no próprio quadro da psicologia, até se confundir com ela, desde que se decida dar a esta última o seu verdadeiro estatuto, definir o seu campo de investigação e rever as suas fronteiras. É a este nível que gostaria de precisar o que representa para mim a psicologia e o que considero dever ser o papel do psicólogo na nossa sociedade de hoje, a fim de que possamos, em última análise, reencontrar-nos em terra firme.

Por agora, parece-me, o estatuto do psicólogo evolui num terreno movediço, inseguro, de limites incertos, de estruturas inconsistentes. Não é verdade que, há algumas décadas, a psicologia erra por vias tortuosas, sem saídas, no mínimo perigosas? E quanto mais pretende enriquecer-se, mais se atola. Pois encontra-se envolvida em caminhos obscuros, complicados a mais não poder, cujos prolongamentos subterrâneos atacam os próprios fundamentos da moral humana, que acabam por minar até os destruir. Além disso, a dependência que a psicologia parece sentir em relação à medicina e, nomeadamente, à psiquiatria, arrisca fazê-la perder a sua identidade. Ela pode, certamente, prestar serviço aos psiquiatras, mas nem por isso é uma especialidade que emana da casta médica. Que tenha havido médicos que se interessaram pela psicologia, é um facto, mas a psicologia não deve, por isso, tornar-se o seu feudo.

A ninguém ocorreria afirmar que a psicologia se liga à física sob o pretexto de que Wundt, Helmholtz e Flechner se envolveram em investigações que lhe diziam respeito. Ela é e deve permanecer independente. Cada um pode dedicar-se a ela trazendo o seu adquirido, a sua marcha de espírito, as suas aprendizagens, sem por isso mudar o estatuto e a dinâmica desta disciplina.

A psicologia deve permanecer o que é: o estudo da alma, isto é, o estudo dessa irradiação própria a cada ser que vibra em todo o indivíduo sob a casca da sua personagem.

Quanto à análise da alma, ela não está por fazer ou, em todo o caso, deve ser encarada sob um aspeto diferente daquele que caracteriza atualmente as abordagens psicanalíticas. Os meandros de um inconsciente que tem dificuldade em exprimir-se por si próprio devem ser arrumados entre as aventuras fantasmáticas do indivíduo, menos ricas e menos poéticas, é verdade, do que as lendas milenares nas quais mitos e mitologia encontram as suas fontes.

Em contrapartida, a revelação dos ecrãs interpostos que escondem o ser subjacente continua a ser o trabalho maior do psicólogo. A descoberta daquilo a que se chama os estados de alma é a própria prova da presença destes ecrãs que impedem os clarões da consciência de se manifestarem. E se é verdade que a alma pode ser alterada ou tingida, mantém-se que o ser em si que ela recobre é, por definição, por essência, absolutamente límpido.

O trabalho do psicólogo consiste em detetar estas alterações que contribuem para a criação de uma personagem falsa, dolorosamente estruturada, mal na sua pele. É ao psicólogo que cabe o dever de proceder à reativação das potencialidades subjacentes do ser, até então sufocadas ou nunca ainda exploradas.

Se a abordagem atual, diagnóstica digamos, é excelente em matéria de psicologia graças ao imenso contributo constituído pelas investigações efetuadas desde o início do século, não deixa de ser verdade que as soluções curativas não seguiram a mesma progressão. Tem-se hoje demasiada tendência para confundir os elementos do diagnóstico com os da terapia. Como se se pretendesse curar uma diabetes fazendo três vezes por semana uma glicemia ou uma glicosúria, ou mesmo ambas ao mesmo tempo.

É a este nível que a Audiopsicofonologia adquire toda a sua dimensão. Ela oferece meios numerosos e eficazes para libertar a alma das suas amarras. Antes de mais, traz um elemento de diagnóstico importante pela introdução do teste de escuta. Este último revela-nos não só como o sujeito ouve, mas como deseja escutar. É o nível de desenvolvimento desta aptidão que nos dará a chave do grau de inserção do humano que habita o indivíduo e que orientará toda a ação terapêutica ulterior.

Em seguida, a Audiopsicofonologia põe à disposição do psicólogo meios que podemos realmente considerar como sendo da maior importância. Para o conseguir, serve-se da eletrónica. E porque não? Alguns repugnam-no, outros encontram nele um atrativo. É, bem entendido, num justo meio que se situa a realidade, que nem por isso deixa de revestir o aspeto de um novo desafio.

Foi, com efeito, graças à eletrónica que me foi possível realizar aquilo a que se chama, em matéria de investigação, «simuladores», isto é, conjuntos capazes de funcionar à maneira de… E enquanto me esforçava por aprofundar o estudo dos mecanismos da audição, orientava-me para a realização de um «modelo». Este não é senão um complexo eletrónico que funciona já não à maneira de… mas como o próprio ouvido.

O nosso «modelo» sofreu com o tempo, como se imagina, modificações à medida que a eletrónica progredia nas suas performances, mas devia conservar ao longo dos anos a denominação de «Ouvido Eletrónico». Este «modelo» não só parece obedecer às leis que regem os mecanismos do ouvido, como ainda tem o poder de conduzir para um bom funcionamento todo o ouvido humano que não chegou, por diversas razões, à realização da sua função de escuta. Torna-se, daí em diante, um verdadeiro educador do labirinto, dando a este simultaneamente as suas aptidões vestibulares e as suas dimensões percetivas cocleares.

Como se pode ver, a Audiopsicofonologia alarga assim o campo de ação próprio do psicólogo. Permite-lhe reforçar o seu impacto e revalorizar a sua intervenção. O papel do psicólogo consiste doravante em conduzir a cura que administra tendo em conta as etapas que há a transpor. Ao nível da alma, procede então como o faz o parteiro para evitar as distocias.

O fio condutor da cura sob Ouvido Eletrónico está suspenso da função de escuta, função primordial, ontogénica e indutora de toda a comunicação. Ela suscita no ser nascente o esboço do primeiro desejo, o de aderir à vida, essa vida que lhe oferece a mãe na sua gravidez. Deste encontro inicial, que as nossas investigações permitiram explorar com tanta felicidade, toda a génese da relação vai instituir-se, com a mãe, depois o pai e, enfim, com o meio sociocultural já inscrito na dinâmica parental.

Graças à cura que permite ao sujeito reviver a filiação ontogenética a partir da audição intrauterina da voz materna, o psicólogo pode então dar à sensação a sua dimensão de perceção e, melhor ainda, de perceção volitiva.

Vê-se até que ponto o papel do psicólogo se encontra assim transformado. Tornado pedagogo da escuta, será o guia que mostra o caminho àquele que lhe é confiado, revelando-lhe e suprimindo os ecrãs que obscurecem o seu horizonte. Dar-lhe-á assim a possibilidade de assumir plenamente os obstáculos que a existência lhe reserva.

Será isto dizer, sob o ângulo de uma nova afirmação, que fazemos do psicólogo um Audiopsicofonologista? Parece-me que não pode ser de outra forma. Parece-me igualmente, com cada vez mais certeza, que não se pode aceder à Audiopsicofonologia sem ser psicólogo.

Resta ainda precisar o que «psicólogo» quer significar. Ser psicólogo é, antes de mais, amar o outro, estar à escuta da sua alma até sentir nela vibrar o sopro do espírito que quer exprimir-se; é estar dotado de uma qualidade intrínseca próxima de um estado de graça. Sem isso, não se é psicólogo, ainda que se tenham no bolso os mais belos diplomas universitários. Não há psicologia sem esta inteligência do coração, e poder-se-á encontrá-la tanto no psicólogo profissional como no médico, no linguista, no músico, no pedagogo ou no educador.

Pode-se assim afirmar que todo o psicólogo, no sentido lato do termo a que acabámos de nos referir, é, por definição, por essência, um audiopsicofonologista. Os dois universos aderem um ao outro com uma tal força, em todos os pontos e em todos os lugares, que se revela bem difícil, ou mesmo impossível, dissociá-los.

Mas se esta fusão se torna, com o tempo, cada vez mais evidente, concebe-se, no entanto, que tudo isto não se fez num só dia. Em toda a investigação, é preciso saber esperar. Infelizmente, raros são os que conseguem dar provas de uma tal paciência antes de adquirir a certeza da evidência. Muitos apoderaram-se da Audiopsicofonologia para dela disporem a seu bel-prazer e também ao seu nível de incompreensão. Julgaram bom inovar, quando bastava deixarem-se captar pelos factos para poderem ir mais longe. Julgaram bom adaptar a Audiopsicofonologia às suas necessidades, quando convinha conformar-se a certas leis solidamente estruturadas, para descobrir a adaptação.

Mas, felizmente, o caminho está aberto, e alguns que nele se aventuram merecem largamente o título de audiopsicofonologistas. Sem dúvida, a Universidade de Potchefstroom, essa mesma que me convida a exprimir-me hoje, é uma daquelas que contribuíram tão poderosamente para fazer surgir em mim a noção de unicidade que existe entre a Audiopsicofonologia e a psicologia. Pela sua paciente espera, pela sua longa observação, pela sua prudente aplicação, a equipa de Potchefstroom mostrou, ao longo dos anos, que sabia seguir com retidão o caminho traçado.

Não há outra observância senão a obediência a leis, a regras que escapam a todas as axiomáticas elaboradas a partir de constrangimentos intelectuais. Trata-se, de facto, de obedecer a, ou, o que vem a dar no mesmo, de se pôr à escuta das leis fundamentais que regem o humano no homem, isto é, aquelas mesmas que permitem ao ser vibrante e vivo em cada um de nós manifestar-se. Este ser poderá assim agir em toda a liberdade. Poderá irradiar sem entraves, sem que se interponham colorações ou distorções que operam como filtros destinados a alterar a realidade.

Com efeito, só a criação se exprime pela potência da linguagem do seu criador. O homem só saberá exprimir o que se lhe manifesta, e a sua palavra evocará com tanto mais fidelidade o que o Logos lhe dita quanto nenhuma interposição existencial vier tingir a sua expressão verbalizada. A este nível, e só a este, a sua expressão será a de um verdadeiro diálogo, do qual jorrarão as evocações dos símbolos, sincronicamente jalonados por uma linguagem analógica paralelamente enunciada em parábolas. Todo o outro discurso, espécie de condicionamento mais ou menos hipnótico, envolver-se-á numa dialética de baixo nível, sem aderência com a realidade.

Certamente que os voos para os quais vos arrastei voluntariamente, para vos mostrar a importância e a profundidade do assunto que acabámos de abordar, se exprimem por resultados tangíveis mais prosaicos, que tocam o quotidiano, os problemas de todos os dias, desde a simples dificuldade escolar até ao distúrbio profundo do desejo de viver. Estes resultados serão objeto de diversas comunicações e deixo ao cuidado dos oradores que participam neste simpósio reconduzir-vos, por meio de números, a noções mais pragmáticas.

Será isto dizer, contudo, que tudo foi encontrado e que já não há nada a procurar? Longe de mim tal pensamento. Verifica-se que entrei em contacto com realidades que me abriram um largo campo experimental no qual me envolvi sem reservas. Mas continuo persuadido de que é preciso agora assegurar a substituição e formar sólidas equipas para explorar este imenso domínio. Serão decerto necessárias gerações de investigadores para descobrir todos os seus recursos. Quando se aborda um novo continente, ignoram-se as suas riquezas interiores e subterrâneas. O essencial é estar certo de que se está mesmo em terra firme.

No entanto, foi precisamente para responder à noção de desafio e de desafio que prossegue que tomei o problema na sua dimensão real, certo aliás de que a proposta que me fora feita, como dizia há pouco, pelo nosso amigo o Professor Van Jaarsveld, tinha decerto uma outra ressonância em profundidade, aquela mesma que diz respeito a toda a África do Sul. Com efeito, quem melhor do que um sul-africano pode compreender o que é o desafio?

A sua existência, o seu compromisso, a sua fé, a sua esperança numa realidade que se aproxima do absoluto, dão disso testemunho. Certamente, é fácil introduzir subtilmente queixas numa abordagem positiva em busca da Vida. Mas é próprio do espírito humano tratar com escárnio aquilo que depende da essência. Há milénios que é assim, e o «qadoch» bíblico que quer designar o ser fora de série, fora do comum, o santo de certo modo, não evoca ele ao mesmo tempo a imagem do «tolo»? Os dados da prática quotidiana, tão benéficos no seu ensinamento, ter-me-ão ensinado que toda a ideia positiva nos é dada gratuitamente pelo absoluto com uma generosidade que ultrapassa o nosso entendimento, ao passo que os conceitos negativos nunca germinam senão no caldo de cultura de psiquismos alterados.

Eis-me chegado ao fim do percurso após este longo discurso, aproveitando a oportunidade, antes de mais, para vos agradecer calorosamente o acolhimento tão cordial que nos reservastes, a minha esposa e a mim próprio, por ocasião deste simpósio, e para vos significar em seguida o meu reconhecimento por me terdes permitido sustentar, perante mim próprio, um novo desafio, o de me ter exprimido em inglês diante de vós. Talvez seja em afrikaans da próxima vez.

Anexo

Os três integradores

O conjunto do sistema nervoso está intimamente ligado ao aparelho auditivo por toda uma rede funcional que compreende principalmente três grandes vias sensitivo-sensoriais e motoras que fomos chamados a descobrir no decurso das nossas investigações sobre o ouvido e que denominámos «integradores».

Pode-se distinguir:

  • O integrador vestibular (ou somático)
  • O integrador visual (ou espacial)
  • O integrador coclear (ou linguístico)

O integrador vestibular

A filogénese e a ontogénese convidam-nos a considerar que o ouvido, entrevisto como um aparelho sensorial, não é, na realidade, senão o atributo exterior do cérebro primitivo. Com efeito, este não é senão o conjunto dos núcleos vestibulares situados na parte bulbo-protuberancial do eixo nervoso.

Este atributo torna-se o organizador da relação estática e dinâmica do ser com o seu meio pela sua parte vestibular. Esta assegura a estimulação necessária que permite a este cérebro primitivo ser bombardeado com tantos «bits» quantos são precisos para assegurar a potencialidade ótima de cada espécie.

Por outras palavras, cada labirinto comporta-se como uma verdadeira central dinamogénica e assegura pela sua presença a energetização necessária ao conjunto do sistema nervoso.

Este cérebro primitivo, munido do seu anexo labiríntico, vai, desde a vida embrionária e fetal, induzir a instalação de todo o sistema nervoso. Este aspeto ontogenético, que o percurso filogenético permite facilmente perfilar, introduziu-nos rapidamente e muito naturalmente, posso dizer, no universo da escuta intrauterina.

Ao adquirir a certeza de uma perceção auditiva preexistente ao nascimento, pudemos assim encarar múltiplos prolongamentos de ordem terapêutica.

A instalação da rede vestibular permite instituir uma relação com o meio graças a uma eflorescência de fibras eferentes vestíbulo-espinhais diretas e cruzadas e, aquando do acréscimo do arqueocerebelo e do paleocerebelo, de fibras aferentes de Fleschig e Gowers. Estas formações novas cerebelosas, anexos do cérebro primitivo vestibular, estão ligadas a este último pelas fibras vestíbulo-cerebelosas que se projetam de volta pelo feixe tecto-vestibular emanando do teto cerebeloso.

O conjunto completa-se com o acréscimo de dois cérebros secundários, portanto menos arcaicos do que os núcleos vestibulares, a saber, a oliva bulbar e a parte central do núcleo vermelho, incluindo, bem entendido, os seus feixes olivo-espinhais e rubro-espinhais. Este conjunto forma uma totalidade que denominámos «integrador vestibular somático». Ele constitui, por si só, o aparelho que permite ao esboço da imagem corporal consolidar-se, ao mesmo tempo que assegura, de maneira eficaz e operacional, a estática e a dinâmica do movimento, isto é, a cinética, no meio ambiente, quer seja uterino quer se refira ao mundo exterior pós-natal. Vê-se como este conjunto prepara o instrumento corporal que será ulteriormente atribuído à linguagem.

O integrador visual

Um acréscimo apreciável será aquele que denominámos «integrador visual» e que, por um tempo, o espaço de alguns milhões de anos — tão pouco, de facto, perante a eternidade — se apoderará do integrador vestibular e o tornará dependente. É assim que o animal deambulará visualmente conduzido. No entanto, o labirinto retifica em seguida esta situação e volta a ser prevalecente, obrigando o analisador visual, até então dominante, a pôr-se ao seu serviço. Desde o aparecimento dos mamíferos, a intervenção labiríntica, já atuante e organizadora no sentido embriológico do termo, faz-se sentir. E os comandos de regulação operam-se simultaneamente ao nível das raízes anteriores da medula e ao nível bulbo-protuberancial pelos feixes vestíbulo-mesencefálicos, que comandam desde esse instante os núcleos motores dos VI, IV e III pares cranianos, origens dos nervos motores do olho. Esta última aquisição acompanha-se de uma mobilidade crescente dos globos oculares até instituir a visão binocular nos antropóides. Esta etapa é o fruto de uma ação poderosa labiríntica vestibular sobre o integrador visual. A imagem do corpo, já esboçada e, por esse facto, largamente reforçada, permitirá não só ao ser situar-se no meio ambiente, mas ainda apreender este último.

O integrador coclear

Por fim, numa última etapa que responde não a uma evolução, mas à realização de uma estrutura indutora de alto nível — e é à própria função da linguagem que pensamos — o labirinto vestibular (isto é, o utrículo com os canais semicirculares e o sáculo) que opera como um giroscópio que rege o equilíbrio, vê-se atribuir a cóclea, verdadeiro sextante que lhe imporá uma posição definida com vista a aumentar a sua eficácia e, por aí, a adquirir a verticalidade. Esta faz do homem uma antena — uma antena neurológica — capaz de traduzir analogicamente em função da fala o que a função da linguagem lhe revela. Para tal, a verticalidade é necessária a fim de que o corpo se torne o recetáculo sensório-motor da expressão verbalizada. Para que a palavra se encarne, é necessário e indispensável que a linguagem seja integrada de maneira motora e sensorial. É todo o corpo que fala. Mas é ele também que se embebe, que se impregna, que memoriza. A memória é o resultado de uma indução psico-sensório-motora.

Pelo seu aparecimento na organização — no sentido embriológico do termo — a cóclea determina a ampliação cerebral. As áreas extrapiramidais tornam-se consideráveis e vão projetar sobre o cerebelo contrarreações motoras mais elaboradas, pelos feixes temporo-ponto-cerebelosos, fronto-ponto-cerebelosos, parieto-ponto-cerebelosos, e pelo seu retorno cerebelo-dentado-rubro-talamo-corticais com as contrarreações sensoriais pelos feixes espino-talâmicos e os feixes de Goll e Burdach. Estamos assim na presença daquilo a que denominámos «o integrador coclear».

Por este último, o cérebro está inteiramente conectado com o cerebelo, que nos revela assim mais explicitamente o seu papel de lugar de relé, verdadeira caixa de conexão que permite ao labirinto recolher o conjunto das respostas somáticas diretamente projetadas ou anteriormente corticalizadas. Assim, enriquecido com o conjunto destas informações, o labirinto poderá coordenar e regular ciberneticamente toda a estática e a gestualidade corporal espontânea ou que lhe imporá a decisão do ato voluntário pela via dos feixes piramidais.

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Fonte: Alfred A. Tomatis, «O desafio da audiopsicofonologia», conferência inaugural do simpósio de audiopsicofonologia, Universidade Cristã de Potchefstroom (África do Sul). Transcrição a partir do fac-símile (restauro digital Francis Besson, 2012).